20/08/11

ORGANIZAÇÃO DO ESTADO

Correndo o risco de acabar com uma das características que será imagem de marca de Portugal nos anos vindouros, D.Afonso III decide organizar o Estado. Além de reforçar o seu poder, pretende fiscalizar o autêntico regabofe que os grandes senhores faziam nas conservatórias de registo predial, quanto à posse e autonomia de terras desocupadas. Por um lado, manda realizar inquirições (o Real Instituto de Estatística vai de porta em porta, apurando o que pertence ou não ao rei), por outro, institui as confirmações, onde, após nova coroação, os nobres teriam de comprovar a posse das terras que usufruíam. Escusado será dizer que esta medida provoca enormes filas de espera, onde os nobres, à chuva ou ao sol, perdem um dia ou mais de trabalho para entregar declarações em papel, em carruagens assinaladas com postos móveis da DGCIR-Direcção Geral de Contributos Impostos pelo Rei.

Em 1279 morre D.Afonso III, sucedendo-lhe seu filho D,Dinis. Com bastante olho para o negócio, vulgo espírito de merceeiro, e dado que naquela altura todos os negócios eram rentáveis, D.Dinis lança-se no mercado com todo o entusiasmo: apoia a agricultura sem olhar a subsídios europeus; auxilia a indústria, com incentivos à produção e planos de recuperação para empresas em dificuldades, além de apoiar a fixação de investimento estrangeiro em zonas desfavorecidas; protege o comércio interno criando uma rede de feiras francas (isto é, feiras sem reboliço nem engano, onde se pode comerciar à vontade); ajuda o comércio externo com a criação de empresas import-export aproveitando a passagem obrigatória das rotas marítimas pelo nosso país e fomenta a instrução criando a Universidade de Lisboa, onde as propinas não eram exageradas. Além disso, D.Dinis apoiou bastante os trovadores, pois também elel levava uma vida artística, recitando poesia nas melhores casas de espectáculos, granjeando fama e proveitos, que depois foram aplicados em acções ecológicas apoiadas pela Quercus, como as plantações dos pinhais de Leiria e Azambuja.
A carreira artística de D.Dinis assentava sobretudo em músicas de melodia fácil, que entravam facilmente no ouvido ou em outros orifícios, e que estavam muito em voga na época, como as cantigas de amor ou as cantigas de amigo. As primeiras, apesar de cantadas em português arcaico, podem considerar-se as precursoras dos slows, ouvidas sobretudo em festas de garagem. As cantigas de amigo eram mais populares e podiam falar de tudo o que um homem quisesse, de futebol a fêmeas. É célebre aquele cantar de D.Dinis, com o mais suave sentimentalismo lusíada “Ai flores, ai flores do verde pino(...)”, que só viria a encontrar paralelo na nossa cultura já no séc.XX, com o também mui célebre “Nós pimba, nós pimba (...)”.

É também de destacar o apoio à Marinha, especialmente na construção de navios, tão úteis no transporte de trabalhadores, a partir da Trafaria e do Barreiro, para Lisboa. Contudo, o desenvolvimento da navegação traz problemas como os naufrágios, as retenções em portos estrangeiros e as brigas de marinheiros. Para remediar tais maleitas, D.Dinis cria em 1293 a “Bolsa dos Mercadores”, um alforge de couro escuro destinado a albergar moedas que cobririam as indemnizações em caso de acidente. Era um brilhante sistema de seguros, com preços surpreendentes e prémios bonificados até 50%, actualizados de acordo com o valor de mercado do navio. Para a perfeição, apenas faltava poder ser tratado por telefone o que, atendendo à inexistência do mesmo, não se poderá considerar como defeito.
Este desenvolvimento da navegação e do comércio faz aparecer um novo tipo de parasita na sociedade: o burguês. Trajavam de igual como se tivessem saído de uma linha de montagem, andavam com uma pastinha de cabedal debaixo do braço e eram mestres na arte de bem ver sem muito fazer. Os mais novos eram os chamados “yuppies”, termo anglo-saxão para designar o tipo que dá pulos de contente quando conclui um negócio. Paralelamente, desenvolvem-se na cidade medieval todo o tipo de ofícios: primeiro, os necessários à própria urbe (carpinteiros, pedreiros, calçadores, almeidas e inspectores camarários); depois, os que respondiam às necessidades da população (alfaiates, sapateiros, padeiros, vendedores de lotaria e mulheres de má vida); e por fim, os que estavam ligados aos negócios do luxo (ourives, pintores, esteticistas e cronistas sociais).

Enquanto a sociedade fervilhava, D.Dinis promovia uma guerrinha constitucional com Castela, ocupando algumas terras entre os rios Côa e Douro. Os livros de história têm atribuído estas invasões ao facto do rei português querer definir fronteiras com Castela, o que não é correcto. Na verdade, e demonstrando mais uma vez a sua cultura e visão de futuro, D.Dinis apercebe-se que aquela região é extremamente rica em pinturas rupestres paleolíticas ao ar livre e que, bem aproveitado, o local daria um excelente parque arqueológico no futuro, quem sabe se, substituindo uma barragem. Por isso tratou de garantir a sua posse via Tratado de Alcanizes, em 1297, por engano do rei de Castela, Fernando IV de Castela, que nada sabia do assunto.
Mais ou menos por esta altura, surge a notícia de que o Papa pretende extinguir a Ordem dos Templários por não ser rentável. Perante a ameaça de despedimento de centenas de religiosos, D.Dinis aplica um extraordinário acto de gestão criando a Ordem de Cristo-E.P., passando para ela todos os funcionários e bens dos Templários. Com esta mudança de nome, constituiu-se uma nova sociedade com benefícios fiscais durante os primeiros cinco anos. Brilhante.

10/07/11

UM RETRATO GERAL

Por último falemos do rei, a saída profissional mais aguardada pelos jovens, embora a esmagadora maioria não tivesse acesso a ela. Era bem remunerada, tinha todas as regalias sociais praticadas na época e a reforma era garantida, caso não houvessem golpes palacianos.

Praticava-se a monarquia hereditária, uma forma de governo que se caracteriza por buscar o desenvolvimento económico para a família reinante através do lançamento de impostos. Se um pai fosse rei, os seus filhos teriam, em princípio, o futuro assegurado e se é costume dizer-se que o rei estava no topo da pirâmide social, isso é apenas devido ao facto de ele viver no cimo dos montes (onde geralmente se construíam os castelos), mandando em todos e sendo muito rico. Nada mais.

Quanto à economia, o dinheiro não circulava e os terminais de pagamento automático não funcionavam, por falta de invenção da electricidade. Daqui resulta que o comércio interno era reduzido e baseado na troca directa, o que limitava bastante as pequenas mercearias de bairro, obrigando os lojistas a terem grandes stocks de produtos diferentes para trocarem com os clientes. Existiam outros pequenos comerciantes que se deslocavam de povoação em povoação, fazendo o transporte das suas mercadorias nas suas bestas e que eram apelidados, consoante a zona do país, de malmecremes, almacreves, almocreves, ambulantes ou ciganos.
Para além das dificuldades do negócio, estes comerciantes tinham ainda de suportar as portagens que, estrategicamente, estavam colocadas à saída de castelos, cidades, pontes e vias rápidas. Como não podiam voltar atrás eram obrigados a pagar, caso contrário, ficavam sem mercadorias e animais, o que, por outro lado, os dispensava de pagar portagens em situações futuras. O pagamento era feito em morabitinos, mirabitanos ou murabitinhos, consoante a cotação do dia.
Paralelamente, surgem mercados e feiras, locais onde os mercadores ambulantes podiam vender os seus produtos, os agricultores escoarem os seus tomates e os ciganos a sua roupa de marca Ardidas, Mike e Le Quic Sportuf. Desconhecem-se campanhas eleitorais nestes espaços, no entanto existem já relatos de que carteiristas praticavam a sua arte.

O poder ilimitado do rei, que já vimos, não o era, porém, em todo o lado. Os concelhos com Carta de Foral tinham uma certa autonomia de governação, elegiam os seus juízes e faziam as suas leis. Existia a chamada “assembleia de homens-bons”, eleitos pela população para tratar dos seus problemas. Basicamente, um homem-bom era aquele que deixava um rasto de suspiros por onde passava, com as mulheres, casadoiras ou não, a caírem a seus pés. Como é óbvio, eram mais dados a tratarem da sua pele e a mirarem-se ao espelho, do que a tratar dos problemas da comunidade, o que provocava alguns problemas. Principalmente, entre os pais das virgens solteiras.

Neste período de conquista e alargamento do território, três correntes culturais estiveram na base da formação do “homo lusitanus”, como hoje o conhecemos. Desde logo a cultura cristã, algo primitiva e atrasada (porque foi das últimas a chegar), com pouca luz no seu interior, embora fosse aquela que construísse mais e melhor – no entanto, há que reconhecer, janelas não eram o seu forte.

Deste período há ainda a destacar as principais construções, que adoptavam um estilo muito pesado, originando grandes encargos de orçamentação e grande demora na conclusão dos projectos, algo muito diferente daquilo que se passa na actualidade.
Chamado de estilo românico, caracterizava-se por paredes muito grossas (que não deixavam ouvir o vizinho de cima), poucas janelas adaptadas à coscuvilhice, tectos em abóbadas de berço e arcos redondos (que o são, por definição).

26/06/11

O POVO

O grupo social mais, digamos assim, fraquinho, era o povo, que em geral não possuía terras embora fosse ele a trabalhá-las para garantir o seu sustento, da sua família, dos seus senhores e respectivo agregado. Por tudo isto será correcto afirmar que o povo era o grupo social mais culto, pois trabalhava para alimentar toda a sociedade ignorante de fidalgos que vivia sob o lema “nem só de pão vive o homem”.
Apenas o povo se dava conta que isto não era verdade, sabendo que, caso entrasse em greves e jornadas de luta, a sociedade cairia pela base.

As casas dos camponeses eram geralmente muito modestas, T0 ou T1, sem casas de banho ou salas de estar, com pouca mobília e cheiro a bafio. Como elementos valorativos em termos de IMI, podemos apontar a existência de ar condicionado (pelo tempo que fizesse no exterior), telhados rústicos em colmo e colchões de palha de características ortopédicas, adquiridos via TV-shop. A sua alimentação era à base de pão negro (principalmente, quando ele caía no chão), cebolas, alhos e toucinho, o que dá saúde e vigor, conforme comprova o dr Rogoff. A energia assim adquirida era consumida na agricultura e na pecuária, sobre as quais recaíam as rendas dos senhorios. Vejamos o exemplo de uma passagem do foral de Penacova:

“Aquele que lavrar com dois bois pague um moio; aquele que lavrar trigo ou milho ou centeio dê uma teiga do pão que lavrar (...) o peão dê a dízima do seu vinho (...) os peões façam cubas e casas no castelo de Penacova”.

Por aqui se vê que para pagar todas as suas contribuições, o camponês ficava de pés para a cova, daí o nome da povoação. Além disso, eram obrigados a procurar um dicionário buscando o que seria uma teiga ou um moio, o que equivalia a dizer que os impediam de pagar as suas contribuições a tempo e horas, por via do seu analfabetismo funcional.

A agricultura era rudimentar e, embora aproveitando um recurso natural ainda hoje muito abundante – o estrume – a produtividade era pouca, as alfaias puxadas por bois e os produtos escoados para o estrangeiro nos alforges de burros, o que não permitia grandes apresentações em feiras internacionais.

13/06/11

O CLERO

O outro grupo social de prestígio era o Clero, agregado em dois sub-conjuntos: o clero regular e o secular. O clero regular era constituído pelos que exerciam a religião mais regularmente, pois viviam em mosteiros e a isso eram obrigados, por falta de outras opções de lazer.
Entre eles temos as ordens militares-religiosas, já tratadas nesta obra, e os monges dominicanos (que apenas mugiam ao domingo). Os mosteiros eram dirigidos por um abade, que às refeições era sempre o último a levantar-se e daí a expressão “comer que nem um abade”. Já os monges, vestiam-se todos da mesma maneira, e tornou-se hábito designar com tal o dito cujo.

Quanto ao clero secular, eram assim chamados por serem muito velhos, levando séculos a subir na hierarquia, para chegarem a bispos e cardeais. Para além do serviço religioso, o clero apropriava-se de outras funções, como a assistência a doentes e o ensino, deixando por isso no desemprego milhares de médicos e professores. O sucesso das suas boticas, com remédios feitos a partir de raízes e folhas de plantas, suplantava largamente o atendimento nas caixas de previdência, onde enfermos e peregrinos tinham de suportar horas e horas de espera para uma consulta, com a agravante de por essas alturas não haver ainda o hábito enraizado de ler revistas antigas nas salas de espera.

A educação tinha vários defeitos: funcionava em circuito fechado, isto é, os professores eram do clero e ensinavam os futuros clérigos; não havia lei de bases do sistema educativo; as propinas eram elevadas e o material educativo estava pela hora da morte, pois todos os livros eram edições de luxo, copiados e ilustrados à mão, com folhas de pergaminho e capas de cabedal trabalhado.
Os testes eram muito difíceis, pois eram escritos em latim, o que para a maioria era chinês, embora os monges copistas tivessem sempre boas notas, talvez por defeito de profissão.

Às ilustrações chamavam-se “iluminuras”, o que era um contra-senso, pois geralmente eram feitas quase às escuras, no interior de grandes bibliotecas, o que justifica a qualidade desses desenhos, pois se o monge estava a trabalhar às escuras e não fizesse uma boa iluminura, não conseguiria ver o resto do trabalho.

12/06/11

A NOBREZA

Neste grupo social podemos considerar dois sub-grupos: a Alta Nobreza (ricos homens, com mais de 1,80m, olhos azuis e compridos cabelos louros, que adoravam desfilar na corte com seus gibões de pavão) e a Baixa Nobreza (todos os outros nobres e escudeiros que apenas sugavam o sustento do rei, acompanhando-o para todo o lado nas funções de guarda-costas ou guarda-peitos da rainha). Entre os nobres temos também os infanções, ou seja, os infantes-escanções, encarregues de provar o vinho real.

A maioria dos senhores vivia em castelos, habitando nas torres de menagem, as quais abriam à visita de turistas para excursões guiadas nos feriados. No salão nobre tomavam as refeições, ricas em hidratos de carbono, gorduras monoinsaturadas, triglicéridos e lípidos com fartura; o mobiliário era reduzido e de design minimalista (tipo ikea mas em rústico), e, nos dias frios, acendiam-se lareiras, o que, não dominando ainda o fabrico de chaminés, arte que só chegaria com a conquista completa do Algarve, lhes deixava a roupa impregnada de um aroma a fumeiro, digno de chouriças barrosãs.
A principal ocupação dos nobres era o combate, usando espadas, lanças, maças, escudos, fisgas, pontapé nas canelas e cuspidelas. Cada cavaleiro tinha um escudeiro que, como o próprio nome indica, lhe tratava das finanças e preenchia os recibos verdes, que o seu senhor tinha de emitir em troca dos escudos recebidos pela participação nos combates.
Por vezes, caçavam cervos, ursos, javalis ou camponesas indefesas e, quando o ar livre não o permitia, dedicavam-se a jogos de sala, entre eles o xadrez. Embora não fosse de bom tom, a sua manobra preferida era comer a rainha com o bispo. Para animar o ambiente, existiam os jograis e os trovadores que, acompanhados à viola e ao bandolim, declamavam poemas, cantavam canções e levavam com tomates podres quando a música não agradava aos ouvintes.

01/05/11

ORGANIZAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA * INTRODUÇÃO

Durante esta época de conquistas e reconquistas a sociedade portuguesa foi evoluindo, embora lentamente como é seu apanágio, na sua organização.
Perguntar-se-á se os jovens estudantes terão também de formar o seu conhecimento sobre estas matérias. A resposta é sim, porque mesmo que não tivessem, o contrato obriga os autores desta obra a arranjarem matéria para o máximo de volumes possíveis.

Assim sendo, comecemos pelas guerras contra os mouros, nas quais os reis recebiam muita ajuda de profissionais liberais como os cruzados e os cavaleiros nobres. Estes cavaleiros eram as pessoas mais importantes do reino, por possuírem muitas terras e poderes dados pelo rei e, ainda hoje, mantêm a sua influência no país, nomeadamente, através das Carnes Nobre, SA, produtora de salsichas, fiambres e chourições. Além disso, dado que as guerras eram contra os infiéis, também nelas participavam alguns membros do clero, através das chamadas Ordens Militares-Religiosas.
Dado o carácter fechado que a Santa Sé apresenta até hoje, não é possível sabermos ao certo de que se tratavam estas ordens. Enquanto uns historiadores afirmam que as ordens militares-religiosas eram ordens dadas pelo rei e pelo papa ao mesmo tempo, outros historiadores, certamente menos parvos, apontam estas ordens como sendo constituídas por padres-guerreiros dispostos a defender as igrejas dos ataques dos ladrões. Esta hipótese parece-nos mais verosímil, pois em verdade os padres, monges e frades destas ordens militares-religiosas adoravam uma boa luta onde pudessem dar no canastro aos muçulmanos, tudo, como é óbvio, com boas intenções cristãs.

Não esquecendo o importante papel destas ordens, a maioria dos combatentes cristãos eram homens do povo, sem direitos mas com muitos deveres, que os senhores usavam nas batalhas por constituírem mão-de-obra barata, sem regalias e com contratos precários – o verdadeiro protótipo da geração à rasca – fazendo umas horas extra para ajudar o orçamento familiar ou, caso o senhor estivesse bem disposto, podendo candidatar-se a alguma das bancas deixadas livres pelos muçulmanos.
A principal preocupação dos nossos reis eram as terras recentemente conquistadas, pois se não fossem povoadas e cultivadas, ficariam sujeitas a que os retornados muçulmanos as ocupassem de novo, edificando construções clandestinas que depois seriam muito difíceis de derrubar para os expulsar, e isto já não falando nas bolsas de pobreza que esta ocupação selvagem do território poderia criar nos subúrbios das grandes cidades.

Como as terras conquistadas eram por princípio do rei, a distribuição era feita quer através de leilões imobiliários (como forma de angariar receitas), quer através de doações (embora não dedutíveis em sede de IRS). Para si, o rei reservava certas terras com maior valor imobiliário quer pelos seus recursos quer pela proximidade a grandes vias de comunicação – a estas terras dava-se o nome de Reguengos, como Reguengo do Alviela ou Reguengos de Monsarraz. Os reguengos eram assim as terras do senhor (não aquele que é omnipresente, mas o que é omnipotente).
As terras dadas aos grandes senhores eram conhecidas como senhorios, pois estes apareciam em casa dos aldeões, normalmente até ao dia 8 de cada mês, para recolher as rendas que os colonos lhes deviam. Se estes não pudessem pagar na data acordada, tinham ainda um prazo alargado de um dia, para o fazer, caso contrário, seriam despejados sem aviso prévio. Se os senhores das terras fossem do jet-set, as propriedades também eram conhecidas por honras, devido à honra que os camponeses tinham em poderem trabalhar como escravos para gente tão ilustre, tão in e tão bem, que passava a vida em festas.

Caso as terras pertencessem ao clero, eram chamadas de coutos, o que depois da reforma agrária deu origem a famílias poderosas conhecidas como Coutos. Da evolução genealógica destas famílias, temos hoje dignos representantes como sejam o Couto do ramo da pasta medicinal, ou o Couto do ramo dos Fernandos, que deu grandes centrais de futebol ao país.

Outra forma de povoamento consistia em dar regalias especiais aos homens do povo que para lá quisessem ir, como isenção de sisa, redução de contribuição autárquica, redução de IRS (Imposto para o Rei, dos Súbditos), etc, por meio de uma carta de foral, documento escrito em que se fixavam as regalias e as obrigações (mais estas), dos moradores de determinada povoação. Essa povoação passava a chamar-se concelho, e se fossem bons concelhos, deviam ser seguidos. Os seus habitantes eram conhecidos pelo nome de vizinhos, pelo que, aqueles do povo que ficavam fora dos limites de um concelho e sem os seus benefícios, podiam dizer que “a galinha do meu vizinho é sempre mais gorda do que a minha”. Outras das desvantagens, caso tivessem telhados de vidro, era não convir atirar pedras aos vizinhos.

Genericamente, a sociedade era constituída por três grupos sociais: um alimentava os três, outro rezava pelos dois e o terceiro defendia-se a si próprio. A Nobreza era a classe mais alta de manda-chuvas, logo a seguir ao rei, enquanto o Clero era um partido independente que defendia o Cristianismo Ronaldismo. Já o povo era a classe mais baixa, isto é, as pessoas vulgares e não atraentes.

17/04/11

INDEPENDÊNCIA E ALARGAMENTO (iii)

Como já se disse, D.Afonso II engordou o poder real até morrer, altura em que subiu ao trono, embora com dificuldade, o seu filho D.Sancho II, de treze anos apenas. Este jovem veio a revelar-se como o antepassado cultural dos futebolistas portugueses da actualidade, dadas as suas características, como se pode ler no seguinte texto, da autoria do historiador José Irmão Sem Raiva:

“Quando em campo, D.Sancho II conseguia aliar a sua bravura a uma enorme sabedoria das cousas da guerra. No entanto, os seus dotes de oratória e diplomacia deixavam algo a desejar. Jovem, gostava mais de ir para o campo pelejar, do que ficar a burilar os meandros da política, que o dominam...”

Os senhores feudais, aproveitando-se da pouca habilidade do rei para jogos de palavras, tentavam reaver os antigos poderes, multiplicando desordens internas, sem que D.Sancho II tivesse a coragem política necessária para chamar a polícia de intervenção, não se preocupando com as eleições. Como se sabe, este medo era injustificado, porque na altura nem sequer haviam eleições.

Alguns bispos, pessoas pouco dadas ao forrobodó que se vivia, escrevem uma mensagem para Roma, informando o Papa do que se passa – aquilo a que nós historiadores costumamos designar pelo termo técnico de “queixinhas”. D.Afonso, conde de Bolonha, irmão de D.Sancho II, inventa o termo “força de bloqueio” e começa a fomentar a acção dos descontentes, minando ainda mais o ambiente de guerra civil, onde se formam dois partidos (o do rei e o do infante), que se guerreiam entre si em comícios, manifestações, visitas a praças para distribuir acenos e aventais às peixeiras, colando cartazes nos castelos, etc.

O Papa Inocêncio IV (que pelo nome se percebe não ser muito astuto), desliga os portugueses da obediência a D.Sancho II e indica o irmão como regedor do reino, o que é bastante para que o “Bolonhês” entre em Portugal como “visitador e curador” do reino, o que muito desagrada à Ordem dos Médicos,
que não reconhece o diploma de curador de D.Afonso – ainda e sempre a questão de Bolonha. Vencido e espezinhado pelo irmão, D.Sancho II retira-se para Toledo onde viria a falecer, herdando legalmente a coroa, D.Afonso III. Desta sucessão ao trono e da tareia dada ao irmão, surgirá mais tarde o termo “pisa à bolonhesa”.

A sua governação foi muito útil ao reino, ou pelo menos assim dizem os cronistas pagos por ele. Conquistam-se definitivamente Faro, Albufeira, Tavira, Porches, Ferraris e demais localidades algarvias que nos tornam, hoje, na nação europeia com as fronteiras mais antigas. Pelo meio ficam alguns desaguisados com Afonso de Castela, que tinha planos para incluir o Algarve no seu roteiro turístico de Marbella, Benidorm e Torremolinos. Porém, D.Afonso III desloca-se a Badajoz e consegue dois importantes feitos: primeiro, compra os caramelos desejados por seu bisavô D.Afonso Henriques; segundo, assina um tratado que coloca definitivamente o Algarve do lado de cá da fronteira.

Em 1254, convoca as Cortes de Leiria, onde pela primeira vez o sujo e desmazelado povo tem direito a sentar suas nalgas na assembleia. Estabelece em Lisboa a capital do reino, com grande inveja dos nobres das Antas, desenvolve a indústria e o comércio do sal, exportando para a Europa uns salgadinhos que são um sucesso de vendas. Tendo estudado em França, o rei tem vistas largas, e apercebendo-se na nossa natural tendência para meter água, desenvolve também a indústria naval (submarinos não incluídos).

07/03/11

INDEPENDÊNCIA E ALARGAMENTO (ii)

Assim, em troca de uma desinteressada contribuição paroquial de quatro onças de ouro por ano, o carimbo final foi colocado no processo em 1179, reconhecendo finalmente na bula papal que D.Afonso Henriques era o legítimo rei do legalmente considerado reino de Portugal. Finalmente, chegara o alvará.
Entre 1143 e 1179, D.Afonso Henriques teve de se entreter com outras coisas enquanto aguardava o seu reconhecimento pela Santa Sé e decidiu voltar-se contra os mouros, para os expulsar de vez. Golpes decisivos: Santarém cai em 1147 nas suas mãos, fulminada por um assalto surpresa à mão armada, e logo de seguida, após cerco que durou quase todo o verão, é conquistada Lisboa, com um importante contributo dos Cruzados, que por acaso aqui passavam a caminho da Terra Santa e que foram feitos voluntários à força nesta guerra contra os muçulmanos. Como o próprio nome indica, os cruzados eram nobres cavaleiros adeptos do cruzadismo, charadas e puzzles, que ocupavam o seu tempo em torneios de palavras-cruzadas contra os mouros, ganhando a maior parte das vezes, excepto, quando surgiam palavras começadas por AL.

Para além destes mercados, D.Afonso Henriques conquistou ainda Sintra, Almada, Palmela, Alcácer do Sal, Beja, Évora, Moura, Serpa e Juromenha, rede de postos emissores de onda média e frequência modelada, que deixou de estar sobre influência da moirama infiel. Por estas alturas surge a notícia bombástica de saldos loucos nos armazéns de Badajoz, aonde ocorrem multidões desvairadas em busca de pechinchas, especialmente, caramelos de nata com pinhões.

D.Afonso Henriques parte também à conquista dos armazéns de Badajoz e está presente quando se dá a intervenção policial com vista a dispersar a multidão desordeira que ali se juntara. O rei português é apanhado no meio da confusão, parte uma perna entalado nas portas giratórias do armazém e é levado pela polícia, para identificação na esquadra. Graças ao seu nome, e porque é sogro de Fernando II, rei de Leão, D.Afonso Henriques consegue sair sem registo no cadastro, regressando a Portugal triste e abatido, sem caramelos.

Foi notável a acção deste rei no povoamento, na valorização do poder económico e marítimo do reino e na defesa da vida cultural. Organizou uma esquadra para jogar em torneios contra equipas moiriscas, nomeando como capitão D.Fuas Roupinho, um mestre no jogo em profundidade quer com o pé esquerdo quer com o direito. Fundou os conventos de Santa Cruz em Coimbra e de Alcobaça (este a cargo de S.Bernardo, patrono dos alpinistas alcoólicos), óptimos locais de desenvolvimento da meditação e da doçaria, criando delícias como barrigas de freira e papos d'anjo.

No ano de 1185 viria a falecer o nosso primeiro monarca, curtido pelas batalhas, exausto pelas vigílias, desgastado pela persistência exigida nos negócios e muito aborrecido pela falta de hobbies para a 3ª idade, sendo enterrado juntamente com sua mulher (que também já estava morta), no mosteiro de Stª Cruz.

No trono, sucede seu filho D.Sancho I, que se preocupou mais em contribuir para o aumento da população mundial do que em conquistar terreno aos infiéis. Ainda assim, decidiu avançar para sul, com dois objectivos: fazer recuar os muçulmanos até à ponta da península ibérica, empurrando-os para o mar e afogando os que não sabiam nadar, e obter as terras do Algarve para as férias da nobreza, como importante fonte de receitas para a balança comercial do país.

Assim, toma em seu poder as estâncias balneares de Alvor, Silves, Albufeira, Portimão, Lagos e Monchique, que lhe darão o título de “rei de Portugal e dos Algarves”, encarando já essa zona como uma espécie de enclave nacional sob domínio estrangeiro, especialmente, de turistas ingleses e alemães. Mas a sombra do poder sarraceno não se havia extinguido e D.Sancho vem a perder as praças conquistadas e aquelas que seu pai lhe deixara a sul do Tejo, com excepção de Évora. Este fenómeno de povoações conquistadas mais de uma vez deve-se ao facto de os católicos não colocarem agentes seus nas câmaras de comércio locais e, por isso, a cada ataque dos retornados muçulmanos com os seus produtos de baixo custo, as cidades voltavam a cair sob a influência árabe. Já se sabe como são os consumidores.
Em resumo, face ao território desgovernado que as lutas tinham deixado, o grande mérito de D.Sancho I foi o de desenvolver uma política de fixação, criando povoações novas (ainda que sem o conhecimento oficial da sua esposa), fomentando o investimento estrangeiro e criando PDRs para ordenar o território, tarefa difícil dado o mau karma que sobrevoou o seu reinado, com tremores de terra, inundações, fome e pestes.

Em 1211 sobe ao trono D.Afonso II, preocupado em conseguir o fortalecimento do poder real, enfraquecido com os abusos dos grandes senhores. E conseguiu tamanho fortalecimento, que doze anos depois morria com celulite, hipertensão e colesterol elevado, ficando conhecido como “o gordo”, bem antes de Jô Soares.
Antes disso, convoca para Coimbra as primeiras cortes de que há memória. Porquê este nome? Precisamente porque são precisos cortes (vulgo, tesouradas) no poder dos grandes senhores feudais, que em certos domínios já mandavam mais do que o próprio rei. Ficou para a história como tendo resgatado para o trono real os poderes ilegítimos de grandes capitalistas opressores da classe operária (entre os quais, os seus próprios irmãos), fazendo valer o bem comum e os interesses da pátria acima dos interesses individuais, embora certos historiadores duvidem de idêntico empenho caso não fosse ele próprio o beneficiado com tudo isso.

A marcar o seu reinado ficou também a primeira participação portuguesa numa selecção ibérica de cruzados, cujo seleccionador era D. Afonso VIII de Castela. O jogo foi contra os mouros, em Navas de Tolosa, em 1212, e segundo as crónicas da época os nossos seleccionados distinguiram-se pela bravura em campo, tendo grande influência na vitória obtida.

20/02/11

INDEPENDÊNCIA E ALARGAMENTO (i)

Senhor do poder e manda-chuva dos barões assinalados, após a vitória em S.Mamede, D.Afonso Henriques acha-se na necessidade de cobrar a D.Afonso VII a despesa que este tinha feito aquando da sua passagem por Guimarães, até porque os cobradores estavam a tornar-se cada vez mais violentos para com os devedores faltosos e as suas finanças não davam para mais do que alguns alqueires de gomas.

Só que invadir a Galiza e enfrentar os exércitos de D.Afonso VII não era tarefa fácil, para mais com o rei de Leão a jogar em casa. Afigurava-se um caso bicudo, e vai daí, bicudo faz lembrar cornos, que faz lembrar bois, que lembra touradas, que lembra pegas de cernelha. Foi esta associação de ideias que levou D.Afonso Henriques a enfrentar e a vencer os leoneses com uma arrojada técnica de combate que consistia em agarrar o adversário pelo fio do lombo, naquela que ficou conhecida como a Batalha de Cernelha, em 1137.

Porém, o príncipe português não teve sequer tempo de organizar uma comemoração na taverna real porque a sul, os Mouros atacavam os seus domínios, irrompendo no mercado com uma força avassaladora, colocando pilhas, relógios, máquinas calculadoras, jogos e lanternas a preços verdadeiramente imbatíveis. Conquistam os mercados de Leiria e de Tomar, com as suas bancas ilegais que prejudicam o comércio tradicional e o nosso D.Afonso vê-se obrigado a pedir tréguas ao rei de Leão, no tratado de Tui, para poder ter as mãos livres para reprimir a ameaça moura na fronteira meridional.

Organizadas as tropas, emparelhados os cavalos e consoladas as viúvas, D.Afonso Henriques parte para o Alentejo, a defender as suas fronteiras ameaçadas, já que os alentejanos nada fazem para conter as invasões Sarracenas, preferindo dormir o dia inteiro à sombra dos chaparros que cobriam profusamente aquela região. O exército de vendedores infiéis era muito poderoso e contava com a orientação de cinco delegados sindicais muito hábeis na defesa dos direitos dos seus trabalhadores, o que mesmo assim não evitou a sua derrota completa, já que a forma de diálogo preferida por D.Afonso Henriques era a situada na ponta da espada.

Foi na batalha de Campo de Ourique que, segundo conta a tradição, houve um milagre no qual Cristo terá aparecido em sonhos a D.Afonso, antes da batalha, prometendo-lhe vitória cristã. Daí, as cinco chagas terem sido bordadas na bandeira portuguesa, após essa vitória. Por amor à verdade histórica, único lema que nos rege, não podemos pactuar com esta lenda até porque ela prefigura um caso de favorecimento do árbitro, antes do jogo. Na verdade, os sonhos vitoriosos de D.Afonso Henriques devem-se à ingestão de cogumelos silvestres e alucinógenos, que por lapso lhe foram parar ao prato. Quanto às cinco pintas vermelhas na bandeira, representam nada mais nada menos do que os cinco delegados sindicais mouros, de tendência comunista.
Vencida esta ameaça, D.Afonso Henriques, que já se auto-intitulava rei de Portugal, comummente aceite por falta de alternativas, pega no tratado de Tui (que havia sido escrito a lápis) e apaga-o, invadindo de novo a Galiza (esta fixação obsessiva pela Galiza é algo que, infelizmente, as modernas técnicas de psicanálise ainda não conseguiram explicar) e desafiando D.Afonso VII para um torneio de bridge em Arcos de Valdevez.

O torneio foi um sucesso de participações, em parte devido à boa organização e em parte pelo apelativo prize-money do título de independência para Portugal, que D.Afonso Henriques ganhou brilhantemente. Face a mais esta derrota e porque, na verdade, a soberania sobre tão insignificante território não valia todas as chatices e maçadas que o príncipe português lhe trazia, o rei de Leão decidiu assinar um convénio em 1143, dando independência ao condado, que se passou a chamar reino. Foi o tratado de Zamora-Machel, nome pelo qual ficaria também conhecido, já no séc. XX, o primeiro presidente de Moçambique independente.

Contudo, o processo de reconhecimento de independência de um país comportava uma tremenda carga burocrática, cujo ponto alto era a confirmação dada pelo papa. Foram necessárias toneladas de atestados, certidões, impressos, declarações, carimbos e assinaturas que apenas levaram cerca de 36 anos a conseguir reunir, graças aos bons ofícios prestados pelo arcebispo de Braga, D.João Peculiar (assim chamado devido ao enorme pecúlio amealhado com os dízimos cobrados ao povo), que intercedeu junto do papa Alexandre III, de modo a acelerar o processo.

13/02/11

O CONDADO PORTUCALENSE (parte II)


Foi durante um desses passeios nocturnos, que D.Afonso Henriques lhe pregou mais uma das suas partidas. Estando D.Afonso VII entretido com uma camponesa num palheiro (não se estranhe os bizarros entretenimentos da realeza, pois temos de enquadrar as acções no seu tempo), o jovem Afonso roubou-lhe as ceroulas, que viriam a aparecer no dia seguinte penduradas no pau da bandeira da torre principal do castelo. O rei de Leão enfureceu-se de tal modo que quase sovou a golpes de cinto o seu endiabrado primo, no que foi detido pelo tutor do jovem príncipe, Egas Moniz.
O tutor responsabilizou-se pelo futuro bom comportamento do rapaz, e D.Afonso VII, farto de tantas partidas, decidiu voltar para o seu reino, não sem antes obrigar a que D.Afonso Henriques fosse, ele próprio, entregar lá a casa as chaves do condado Portucalense.

Mas D.Afonso Henriques não cumpriu a promessa e Egas Moniz teve de partir com a família para Toledo, de modo a apresentar desculpas públicas ao rei de Leão. Egas Moniz estava tão nervoso que deu um nó górdio na gravata, que lhe cortava a respiração, e como teve de aguardar imenso tempo na sala de espera das audiências reais, já quase sufocava quando o rei o recebeu. Perante tal acto de honradez e resistência à falta de ar, Afonso VII perdoa o primo e manda Egas Moniz em paz. Este nobre cidadão viria alguns séculos mais tarde a ganhar o primeiro prémio Nobel da medicina para Portugal e a ter direito a figurar nas notas de cinco mil escudos, numa singela homenagem do povo a um dos seus mártires. Há quem diga que era outro o Egas, mas não era.

Após este episódio, Afonso Henriques livrou-se da ameaça mas não se livrou da malandrice e foi durante uma das suas viagens exploratórias que veio a encontrar D.Teresa em atitudes e posturas pouco reais, na cama com um fidalgo galego de seu nome Fernão Peres de Trava. Ladino e esperto que nem um alho, o jovem Afonso viu que estava ali a sua oportunidade para alcançar a almejada independência e ameaçou a mãe, em como contaria tudo aos jornais, se ela não satisfizesse as suas pretensões.
D.Teresa compreendeu que, maior que o escândalo de aparecer na 1ª página do Correio-Mor da Manhã, seria a notícia da sua relação bastante próxima a um fidalgo estrangeiro (ainda por cima, galego!), o suficiente para fazer explodir o coração de um povo desejoso de independência e, por isso, fez as vontades ao filho.

Aproveitando os seus 17 anos, D.Afonso Henriques exigiu um aumento na mesada, permissão para chegar a casa mais tarde, um conjunto de cavalos de marca, o direito a receber em seus aposentos quem muito bem entendesse e, de bónus, a governação do condado. D. Teresa a tudo disse que sim, no entanto, quando se apanhou livre da chantagem do filho, fingiu-se esquecida da promessa de lhe entregar o condado. O caso viria ainda a originar várias discussões entre mãe e filho, até que numa noite fria de 1128, D.Afonso Henriques rodeou-se da sua pandilha de cavaleiros amigos e foi até ao jardim público de S,Mamede, onde sua mãe e o galego Fernão Peres de Trava estavam praticando actos libidinosos.

O casal de pombinhos levou um arraial de porrada de meia-noite (mais concretamente, das onze e cinquenta, segundo iluminuras da época) e foi já com os dois olhos hematomizados, que D.Teresa passou o governo do condado para as mãos do filho, sendo depois levada como refém para o castelo de Lanhoso.

Quanto ao galego, escapou-se de fininho assim que viu “o mar mais alto do que a terra”, levando com ele todo o seu grupo. Os portugueses tinham ganho o direito ao seu próprio governo, sem influência de estrangeiros, caso raro na história futura. Agora, com o seu grupo de camaradas e um povo inteiro à sua volta, vai um jovem príncipe, cheio do fogo do amor pela sua pátria (aquele que arde sem se ver), e senhor de um génio militar e político só comparável com ele próprio, talhar golpe a golpe os alicerces da grandeza futura de Portugal.
 
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